Contra a moldura do estereótipo

 


Flanando recentemente pelas minhas fotos antigas, reencontrei uma fotografia que fiz há anos na abertura da exposição “Coletiva Série F”, que reuniu 21 imagens de grandes fotógrafos brasileiros que utilizaram a lendária série F da Nikon como ferramenta. 

Naquela noite, entre as portas históricas do Solar do Barão, fotografei uma imagem da fotógrafa Ana Carolina Fernandes que, dentre tantas obras icônicas, foi a que mais me impactou. 

A fotografia, feita em 2002 em Isfahan, mostrava uma menina iraniana rindo muito, levando três rosas ao nariz. Um gesto simples, universal, muito humano. Talvez tenha sido exatamente isso que me capturou, aquela imagem parecia sussurrar algo delicado e ao mesmo tempo profundo: a alegria não tem fronteiras culturais, políticas ou religiosas. 

Nós, no ocidente, muitas vezes olhamos para povos distantes — especialmente aqueles sem raízes europeias — através de camadas de estereótipos. Em seu extremo, esse olhar pode se tornar desumanização, como podemos perceber atualmente em terras distantes e em outras nem tanto assim. A fotografia daquela menina, porém, fazia o contrário: devolvia doçura, leveza e humanidade. 

Demorei um pouco para compreender que a potência daquela fotografia não se baseava apenas na bela composição ou no gesto delicado, ela não reforçava um estereótipo, mas o dissolvia, ela deixa de ser apenas documento e se torna um manifesto.

Há imagens que não explicam o mundo — apenas o humanizam. 


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