segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O Parque Lago Azul no Umbará






Ao se casar com Luiza Micheleto, Ângelo Segala não supunha que a área de grande declividade, por ela herdada do pai, Antônio Micheleto, seria transformada pelo esforço do seu trabalho. Na época, nas terras da família, plantava-se de tudo um pouco: milho, feijão, batata e até um parreiral para a produção caseira de vinho. No entanto, para mover o moinho que tencionava construir, Ângelo precisou represar o rio Ponta Grossa, que servia de limite à propriedade. Trabalho exaustivo, pois, para locais mais altos do terreno, foi retirado, com carrinho de mão, o material necessário para formar o lago.

Único da região nos idos de 1940, o moinho dos Segalas atraía muitos moradores da vizinhança. Vinham trocar milho por fubá. No moinho, também se produzia a energia elétrica que abastecia a família. Um sistema de dínamos, inventado pelo próprio Ângelo, carregava baterias, permitindo o uso de lâmpadas de 12 volts, que permaneciam o dia inteiro acesas numa época em que não havia luz elétrica no Umbará. Além dessa melhoria, pequenos prazeres, como ouvir rádio passaram a fazer parte do cotidiano. Parentes e conhecidos, sabendo disso, também começaram a levar baterias para carregar.

Graças ao uso do moinho, muitos conheceram a propriedade e, encantados com o local, pediam para retornar a passeio. Aos poucos, o lago, construído por Ângelo Segala para mover o moinho, passou a ser reconhecido como um local aprazível onde todos eram bem recebidos.

Ângelo não imaginou quando fez o lago que o local, anos depois, se tornaria um dos recantos de lazer dos mais aprazíveis. Na época, poucas eram as áreas para atividades ao ar livre existentes em Curitiba. Semelhante ao Lago Azul, somente o Tanque do Bacacheri, no outro extremo da cidade.

Antes mesmo de ser oficialmente batizado, no começo dos anos de 1960, o lago já atraia muita gente. Os proprietários nunca impediram o acesso. Foi quando Ângelo Segala recebeu, de um homem que se dizia empresário, proposta de sociedade para abrir o imóvel como área para lazer. A denominação Lago Azul é desse tempo. Era assim que o empresário veiculava anúncios nas rádios, que atraíam levas de visitantes.

A sociedade não foi pra frente, mas o nome e o sucesso do empreendimento permaneceram. Até um comércio para bebidas foi instalado pelos Segalas para atender às centenas de pessoas que, semanalmente, lotavam as margens do lago. A popularidade foi tal, que uma linha de ônibus especial foi criada para, nos fins de semana, fazer o trajeto Praça Rui Barbosa - Lago Azul. Além daqueles que procuravam pelo lazer, o local também recebia grupos que realizavam batizados coletivos e o Exército, que utilizava a propriedade para treinamento, pois a amplidão do parque era propícia para atividades diversas.

O Lago Azul transformou-se na praia dos curitibanos. O encontro entre amigos e familiares para um churrasco, um jogo de futebol ou brincadeiras à beira d’água, e recreações como nado, pesca, remo, tornaram-se prática corriqueira até meados da década de 1990.
A ideia de transformar a propriedade da família Segala num parque municipal veio desde meados da década de 1990, época em que, devido à poluição do rio Ponta Grossa, a procura pelo lago decresceu. Desde então, esta era uma reivindicação da comunidade, principalmente dos antigos frequentadores, que gostariam de ver preservado esse lugar de boas recordações.

A propriedade foi adquirida pelo município de Curitiba no ano de 2007, que após reformas e restauros, passou a funcionar como parque em 2009. Com uma área de 128.500 metros quadrados, o parque teve toda sua estrutura revitalizada. A casa da família, bem como o paiol e o moinho, foram recuperados, mantendo-se, assim, a organização original da propriedade. Além disso, novos equipamentos foram instalados, como estacionamento, pista para caminhada, pontes em madeira, decks, trapiche, mirante, churrasqueiras, canchas esportivas, uma praça d’água formada por um piso de cimento com pedriscos no fundo e o parque orgânico, espaço gramado com relevos para as crianças brincarem.

De acordo com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, o parque é frequentado por mais de 10 mil pessoas nos fins de semana, mas é na memória dos moradores do Umbará e Ganchinho que o parque ocupa um espaço afetivo importante, como na do meu anfitrião na visita ao Umbará/Ganchinho, Antônio Oliveira, que me contou que quando era estudante e por algum motivo não tinha aula, ao invés de ir direto para casa para ajudar o pai na roça, parava com amigos na propriedade do Seu Ângelo Segala para nadar no lago, tendo a cumplicidade do Seu Ângelo, que nunca entregou os piás para os pais.

Fonte: Fundação Cultural de Curitiba e Luiz Antônio de Oliveira.

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