sábado, 19 de novembro de 2016

Curitiba perde um gentleman - Eleuther de Alencar dos Guimarães Vianna








Soube por uma amiga que Curitiba perdeu um de seus mais ilustres moradores. Faleceu o Sr. Eleuther de Alencar dos Guimarães Vianna, um brilhante modelista que vestiu primeiras damas, senhoras e meninas ao longo de uma carreira de mais de 65 anos de gosto refinado e mãos talentosas.

Tive o imenso privilégio de timidamente ouvir suas histórias no final de 2014, de poder fotografar seu atelier e seu incrível apartamento, ambos num prédio à altura de sua importância, o Edifício Alvorada na Mariano Torres, projeto de Elgson Ribeiro Gomes.

Nesse breve encontro, anotei vários detalhes de sua vida e dessa conversa, fiz algumas postagens. Apesar da sua já avançada idade, fiquei altamente bem impressionado pela sua voz firme, seu português impecável, sua viva memória e sua educação digna de um lorde.

Repito abaixo um pouco do que pude anotar e aprender com esse gentleman, que marcou gerações de famílias com sua arte.

Eleuther de Alencar dos Guimarães Vianna nasceu em Paranaguá em 1926, no seio de uma família tradicional. Seu pai, inspetor da alfândega, garantiu à sua família uma vida confortável, com acesso à requintes que poucos na época no Brasil poderiam ter acesso.

Muito jovem vai para São Paulo para internar-se no mosteiro de São Bento, onde teve que acostumar-se a viver de forma simples e silenciosa.

Em 1951 muda-se para o Rio de Janeiro, morando num apartamento, segundo ele, JK (janela e kitinete) em Copacabana. Conheceu, entre um banho de mar/sol e outro, a proprietária de uma butique na frente do Copacabana Palace. Ousado como qualquer jovem do alto de seus vinte e poucos anos, comenta com essa senhora que uma butique chique como aquela, não poderia ter uma vitrine “tipo rua da Alfândega” em frente ao Copa. Meio que indignada, ela comenta que trabalhava com o melhor vitrinista do Rio de Janeiro e o desafiou a fazer melhor. Ele, sem experiência, limpa a vitrine e a decora de acordo com seu (bom) gosto e volta para sua rotina de mar, areia e sol.

No dia seguinte, novamente nas areias de Copacabana, percebe um funcionário da butique circulando pelo calçadão e intuindo que esse o procurava, vai ao seu encontro. O funcionário diz que sua presença era exigida imediatamente na butique. Lá chegando, ainda em trajes de banho, percebe que a vitrine está fechada por cortinas e na porta, a senhora o espera. Ele pergunta porque ela tirou tudo da vitrine, ao que ela responde: “foi tudo vendido” e continua “vá para casa, tome um banho, vista-se decentemente e volte para fazer a vitrine”. Estava empregado.

Essa mesma dona de butique certa vez lhe pede sugestões para fazer um vestido a partir de um corte de tecido, o jovem Eleuther diz que apesar de interessar-se muito pelo tema nada sabe sobre corte e costura. Recebe então o conselho que definiria seu futuro: “aprenda”.

Entrou no curso de corte e costura de duas irmãs austríacas judias que fugiram da guerra na Europa (Elizabeth e Malvina Kahane), numa época em que homens não entravam em escolas de corte e costura. Aprendeu a arte da modelagem, trabalhou no Rio de Janeiro, estudou na Europa.

Volta para Curitiba em 04/06/1963, estabelece seu atelier e em setembro executa o seu primeiro vestido para uma debutante do Clube Concórdia e nunca mais parou, vestindo primeiras damas e mulheres de famílias importantes da sociedade curitibana.

Contou que vestiu meninas para primeira comunhão, mais tarde como debutantes, depois como noivas, por fim como viúvas e brinca que apenas não costurou mortalhas!

O Sr. Eleuther se auto intitulava modelista, já que o título de estilista ele reservava para as pessoas que criam moda (como a Maison Chanel). Dizia ser capaz de observar qualquer modelo de roupa, seja uma foto ou um desenho e tornar realidade aquele modelo em qualquer pessoa.

Todos os bordados de seus vestidos eram feitos à mão, tendo os desenhos feitos pelo próprio Eleuther. Um modelo jamais era repetido e a execução era tão primorosa, que ele guardava ainda vestidos de 30 anos atrás, enviados pelas suas clientes por já não servirem mais e por dó que essas têm de desfazer-se deles.

Já foi considerado pela Revista Vogue nos anos setenta um dos cinco melhores estilistas do Brasil e na década de oitenta pela Revista Claudia um dos melhores estilistas do sul do Brasil.

A família do Sr. Eleuther foi testemunha e protagonista da história da nossa cidade, do nosso estado e também do Brasil. Faz parte da sua família ilustres nomes como os do
Visconde de Nácar, Barão do Cerro Azul, o romancista José de Alencar, senador Alencar Guimarães e José Martiniano de Alencar, senador do Ceará que participou da articulação pela maioridade de D. Pedro II aos 14 anos de idade.

Humildemente presto essa sincera homenagem a esse grande homem. Seu legado permanecerá para sempre nas memórias e materializado nos vestidos e fotos das mulheres lindamente vestidas por ele.

8 comentários:

  1. Uma grande perda! Tive o prazer de conhecer o atelier do seu Eleuther e apreciar seu belo trabalho e tbm o privilégio de ter como amiga uma de suas costureiras (Rita), que certamente dará continuidade a essa arte da alta costura, que aprendeu com ele.

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    1. Sem dúvida Leda. Tomara mesmo que sua arte e sua educação sirva sempre de inspiração para novos modelistas.

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  2. Belíssimo e verdadeiro relato do Eleuther.
    Além das qualidades citadas, acrescento a de ser amigo de verdade dos amigos.
    Era de uma gentileza, cuidado e educação ímpar.
    Com certeza foi uma das pessoas mais delicadas e finas que conheci.
    Uma honra e um prazer ter tido a oportunidade de desfrutar da sua amizade. Fará falta à sociedade curitibana❤

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  3. Belíssimo e verdadeiro relato do Eleuther.
    Além das qualidades citadas, acrescento a de ser amigo de verdade dos amigos.
    Era de uma gentileza, cuidado e educação ímpar.
    Com certeza foi uma das pessoas mais delicadas e finas que conheci.
    Uma honra e um prazer ter tido a oportunidade de desfrutar da sua amizade. Fará falta à sociedade curitibana❤

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  4. Fez meu vestido de casamento! Belíssimo!
    Sinto muito!
    Ele era tudo isto e mais ainda.
    Elegância,classe e bom gosto.
    Marcou para sempre!

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    1. Que bacana. Fez parte de um momento importante da sua vida.

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  5. Fez meu vestido de casamento! Belíssimo!
    Sinto muito!
    Ele era tudo isto e mais ainda.
    Elegância,classe e bom gosto.
    Marcou para sempre!

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