segunda-feira, 9 de abril de 2018

A Casa Niclewcz












Para mim foi uma oportunidade única e preciosa de poder registrar de mais perto, já que da rua pouco se vê, uma das duas únicas casas hoje existentes em Curitiba projetadas por Villanova Artigas.

Procurei algum material na internet que deixasse claro o quanto essa casa é relevante para a história da arquitetura e o quanto é uma honra tê-la nas terras dos pinheirais. Encontrei o texto à seguir de autoria do arquiteto e professor titular da UFRGS Edson Mahfuz para o site Archdaily. Para ler o texto completo, ver mais fotos e ver as plantas da casa, siga para esse link.

A casa Niclewicz é um verdadeiro tesouro arquitetônico escondido em Curitiba. É reconfortante poder encontrar obra tão serena e receptiva numa época em que quase tudo é aparência sem substância, e predomina uma ideia equivocada de criatividade, resultando em objetos extravagantes, visualmente impactantes, mas culturalmente irrelevantes.

Projetada por Vilanova Artigas em 1978 para uma sobrinha, foi adquirida em 2003 pelo arquiteto curitibano Marcos Bertoldi, que a recuperou e executou uma série de reformas a partir de 2005, as quais, longe de desfigurar o projeto original, terminaram por qualificá-lo ainda mais.

A casa Niclewicz pertence ao universo brutalista paulista, que consiste em obras executadas em concreto armado deixado à vista. Como essa definição me parece demasiadamente abrangente, pode-se acrescentar a ela algumas características recorrentes na arquitetura paulista do período em questão: o papel de definidor espacial que assume a estrutura resistente, a tendência a uma certa introversão e o emprego de grandes empenas cegas.

A casa Niclewicz é o último elo de uma sequência de projetos residenciais iniciado em 1949, tendo o pensamento projetual subjacente ao seu projeto sido amadurecido no período que vai da casa Taques Bittencourt (1959) à casa Martirani (1969). Justifica-se a publicação dessa casa por três razões, que se espera serem evidentes ao final do texto: pelo seu escasso conhecimento, pela qualidade da sua arquitetura - que culmina uma série de casas de grande qualidade da sua arquitetura - e como exemplo positivo de intervenção no patrimônio moderno. À casa Niclewicz aplica-se o axioma segundo o qual um bom projeto pode e deve ser descrito com poucas palavras. Assim, podemos descrevê-la de dois modos, igualmente breves: ou a vemos como uma planta em L que abraça um pátio, ou como uma planta retangular em que 3/8 da sua projeção são dedicados ao pátio.

As descrições iniciais comparece a figura do pátio porque esse espaço exterior é o foco visual desta casa: um grande salão exterior definido tridimensionalmente pelo volume em L que abriga o espaço interior, pela empena traseira, por três pilares isentos e por vigas que formam uma espécie de pérgola gigante. De todas as partes da casa estamos conscientes da sua presença: da sala, da rampa, da circulação dos dormitórios e da sala íntima.

Essa organização planimétrica clara e consequente serviu de base para resolver a implantação da casa em terreno com forte aclive: um corte vertical no terreno coincide com a metade do retângulo, definindo um setor de acesso e de estacionamento no nível da rua - originalmente aberto à rua, mas posteriormente fechado por um portão metálico - e outro mais elevado que define o pátio privado.

Vista do exterior, os elementos mais evidentes da casa são o muro de arrimo em blocos de granito, situado sobre o alinhamento, e um plano retangular elevado e um pouco recuado: a empena sul da casa. Essa solução dota os espaços domésticos de absoluta privacidade e contrasta vividamente com a abertura experimentada desde o seu interior.

O programa da casa está distribuído em quatro níveis. No nível da rua estão o estacionamento, os acessos principal e de serviço e vários espaços originalmente de serviço, hoje transformados no escritório do arquiteto Marcos Bertoldi, que os ampliou sem que isso seja facilmente percebido, pois utilizou inteligentemente o espaço definido pelos muros de arrimo na frente do terreno. No segundo nível estão o pátio, a sala de estar/jantar, a cozinha/copa e demais espaços de serviço. Meio nível acima, na perna mais curta do L, fica a sala íntima, de onde se tem uma vista elevada do pátio. Uma escada paralela à empena sul conecta o setor de serviço ao setor íntimo da casa. Por fim, no quarto nível estão os cinco dormitórios: metade da planta é ocupada pela suíte do casal, a outra metade por quatro dormitórios que compartilham - em pares - dois banheiros.

A casa atual pode ser considerada um trabalho conjunto entre Vilanova Artigas e Marcos Bertoldi, pois o atual proprietário -ao contrário de muitos casos de intervenção em edificios classificados como patrimônio- qualificou ainda mais a casa por meio da reforma do lavabo, dos sanitários e dos dormitórios. Aqui e ali encontramos novos elementos que servem para acentuar a qualidade do edifício existente, como é o caso do portão metálico que fecha a casa em relação à rua, da substituição do piso original por plurigoma preta e da porta de vidro vermelho que limita o acesso aos dormitórios. A transformação dos espaços de serviço no térreo em escritório do arquiteto também teve o efeito de qualificar uma parte da casa originalmente secundário, com destaque especial para a sala de trabalho definida pelos muros de granito que anteriormente funcionavam como arrimo, onde uma inteligente solução admite luz zenital e ar ao ambiente.

A casa Niclewicz, tanto no seu projeto original como no seu estado atual, fornece um exemplo definitivo de que qualidade em arquitetura não depende de materiais luxuosos nem de formas bizarras: uma correta combinação de espaço, cor, vegetação e materiais naturais pode nos levar muito longe.

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