segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

A Fonte de Jerusalém ou o Memorial das Américas?







Ontem estive acompanhando o Croquis Urbanos no encontro semanal que aconteceu na Fonte de Jerusalém no bairro do Seminário. Há diversas curiosidades que descobri sobre essa fonte, que compartilho hoje aqui.

Já havia feito postagens sobre a fonte e numa delas comentei que há um painel de azulejos numa das faces do pedestal contendo o seguinte Salmo da bíblia:

Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas.

No painel esse Salmo está identificado como sendo o de número 137, ocorre que o Salmo de número 137:1-3 diz o seguinte:

Junto aos rios da Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião.
Ali, nos salgueiros penduramos as nossas harpas;
ali os nossos captores pediam-nos canções, os nossos opressores exigiam canções alegres, dizendo: "Cantem para nós uma das canções de Sião!”

O Salmo 137 inclusive é bem conhecido, pois serviu de inspiração para uma música muito conhecida da época da discoteca, gravada em 1978 pelo grupo Boney M chamada “Rivers of Babylon”, que para seu deleite pode ser ouvida seguindo esse link para o Youtube.

O Salmo grafado no painel é na verdade o de número 127:1 e eu mesmo já havia informado à prefeitura do fato e soube que outras pessoas também, mas o erro jamais foi corrigido.

Apesar de interessante essa questão do salmo errado, a maior descoberta que fiz dessa fonte me foi passada pela autora das esculturas, a arquiteta Lys Aurea Buzzi.

No final de 1994 na gestão do Prefeito Rafael Greca, a arquiteta foi convidada à executar três esculturas de anjos (exigência do prefeito) que seriam o destaque de um monumento a ser instalado na rotatória. O monumento seria chamado “Memorial às Américas”, no qual cada anjo representaria uma das três Américas.

A proposta foi apresentada em janeiro de 1995 e previa que cada anjo de pouco mais de 3 metros seria instalado em pilares individuais, de alturas diferentes (8 à 15m), sobre um espelho d’água no formato dos mapas das Américas, tendo a água como ponto de união. O anjo que representa a América do Norte ficaria no pedestal mais alto e tem os braços para o alto, saudando o que está por vir. O que representa a América Central ficaria no pedestal intermediário e tem os braços abertos saudando a terra e os mares. E o que representa a América do Sul ficaria no pedestal mais baixo e tem os braços para baixo numa referência à sua proximidade com as pessoas. O projeto previa ainda o aproveitamento da maior parte da vegetação da rotatória, retirando apenas o que fosse necessário para dar visibilidade ao monumento.

Algumas alterações no projeto foram acontecendo sem que a autora tivesse participação nelas. A primeira foi a questão dos pedestais, pois houve quem reclamasse que haveria uma espécie de hierarquia entre os anjos devido à diferença das alturas, por isso os pedestais deveriam ter a mesma altura e por fim, de três pedestais o monumento passou a ter um pedestal único. A vegetação que em grande parte deveria ser aproveitada, foi completamente retirada. E a mais drástica mudança de todas: por motivos que oficialmente desconheço, de “Memorial às Américas” o monumento passou a chamar-se “Fonte de Jerusalém”, numa homenagem aos quase 3 mil anos da cidade sagrada. Cada anjo representaria nesse novo monumento as três grandes crenças monoteístas que acreditam na existência de anjos e para as quais a cidade é sagrada: cristianismo, islamismo e judaísmo.

Obviamente os anjos não foram pensados, desenhados e executados para esse fim. Certamente se a proposta desde o início fosse uma homenagem à Jerusalém, os anjos seriam outros e talvez, dentro da concepção que cada religião tem deles.

Enfim, coisas que só a política (talvez) explica e histórias que só temos condições de conhecer ao falar com as pessoas diretamente envolvidas com elas.

A fonte foi inaugurada no dia 22/12/1995, com a presença dos então Governador do Paraná Jaime Lerner, Prefeito de Curitiba Rafael Greca e prefeito de Jerusalém Ehud Olmert.

A última imagem, que faz parte do estudo de como o monumento foi imaginado,  foi gentilmente cedida pela arquiteta Lys Aurea Buzzi.

2 comentários:

  1. Obrigada Washington pela materia, é triste saber que em 23 anos nossa prefeitura não teve condições de arrumar o azulejo do salmo,que representa somente uma migalha no contexto todo,mas que tem conteúdos bem diferenciados, com isso registra-se o descaso, o descuido nas divulgações, que mudam o sentido da essencia da criação, os salmos escolhidos aleatóriamente pelo prefeito deveria ter sido corrigido, mas o descaso não foi só para comigo, foi é também para com as Americas, com as religiões monoteistas e nossa população, onde impõe uma estória, que na verdade é outra.Tudo isso, ao meu ver, poderia ter sido amenizado se mantivessem a Americas homenageando Jerusalém, teria seido uma homenagem mais abrangente,onde as Anjas permaneceriam com seu real significado, sem contudo deixar aproveitar a oportunidade que surgiu ,de homenagear Jerusalem.São as histórias, dragadas pelas estórias ....Talvez um dia possamos com publicações como esta registar na memoria que é por isso que as ANJAS estão lá ancoradas num pedestal que as prendem a uma estoria mal contada, e que não tem intenção alguma de desrespeitar as religiões mencionadas.São 23 anos sem qualquer manutenção,ou verificação de fixação nas esculturas que sofrem ações climaticas constantes, a unica preocupação é com a tinta do pedestal, então se trocar um azulejo é tarefa ainda dificil , imagine o que é uma conscientização de que não se cria um monumento assim o deixa largado no tempo, isso serve para qualquer obra publica, pois é patrimonio da cidade. é preciso cuidar do que se cria.Sempre.Gratidão pela pontuação.Mais um registro sobre as Anjas de Curitiba, que foi uma oportunidade incrivel, que envolveu muita dedicação, determinação superação para realizar, gratidão eterna aos que ajudaram nessa jornada e ao prefeito Rafael Greca por ter me ado a oportunidade de cria-las.Mas sozinha, não tenho como cuidar delas, é preciso aqui também do olhar carinhoso e cuidadoso, quem sabe nesta gestão possamos restabelecer a "luz" (literalmente , em todos os aspectos dessa obra. :) LYS

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  2. Deveriam ter obedecido ao projeto. Não se cria em cima da criação. Penso que foi um desrespeito a artista Lys Aurea Buzzi, que criou estas esculturas maravilhosas!

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