sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A arte sob os nossos pés

















“As calçadas portuguesas estão prestes a ser reconhecidas como Patrimônio da Humanidade. Arte referenciada ao mosaico da civilização bizantina, a presença das calçadas em Curitiba é particularmente importante por ser o resquício do Movimento Paranista das primeiras décadas do século XX. É o calçamento que valoriza as áreas históricas da cidade, como o bairro São Francisco, a Praça Generoso Marques, a Rua XV de Novembro, e muitos outros logradouros, praças e ruas. Mais do que o piso, as calçadas portuguesas são um significativo elemento componente da paisagem cultural.”

O texto acima abria o convite para o evento “Calçadas Portuguesas: a arte sob os nossos pés”, promovido pelo curso de Arquitetura e Urbanismo da FAE Centro Universitário, em parceria com o Observatório do Patrimônio Cultural de Curitiba que já aconteceu nos dias 28 e 29/08.

Eu participei apenas do evento de fechamento, que foi uma palestra com Ernesto Matos (fotógrafo português), Gil Piekarz (geólogo) e Key Imaguire Junior (arquiteto). O fotógrafo português circulou pelo mundo registrando a ocorrência dessa arte em diversos países. O geólogo falou de onde veem as pedras que revestem as nossas ruas e calçadas. O amigo e arquiteto Key Imaguire Jr falou do movimento paranista, do quanto ele teve alcance tímido e do quanto as nossas calçadas de petit pavê são importantes para contar/preservar um pouco dessa história.

Fora do programa, a coordenadora do evento chamou ao palco a vereadora Julieta Reis, representando a Câmara dos Vereadores e a Prefeitura de Curitiba. O resumo de sua fala para mim foi um indicativo preocupante do que pensa nossos políticos sobre a preservação do nosso patrimônio histórico (ainda mais vindo de uma pessoa que tem estreita ligação com a Feirinha do São Francisco).

Disse a nobre vereadora que o poder público precisa achar o ponto ideal entre preservação do patrimônio cultural e a acessibilidade/segurança da população. Até aí, perfeito o raciocínio, mas disse a seguir nossas calçadas são um perigo e que a Câmara homenageou o que consideram o último (!!!) calceteiro de Curitiba e que por causa disso, deu a entender que as nossas calçadas cada vez mais perderiam qualidade, atentando então contra a acessibilidade/segurança dos pedestres. Sua fala me deixou o gosto amargo na boca, de que o destino das nossas calçadas históricas seria a substituição por outros revestimentos sem alma e sem lastro com a história de Curitiba.

Agora convenhamos, temos em Curitiba um último calceteiro?? Não é mais possível essa pessoa transferir conhecimento para outras pessoas? Não há mais pessoas inteligentes o suficiente para aprender esse nobre ofício?? Uma equipe de calceteiros bem treinada, mantendo e até ampliando com qualidade as calçadas de petit pavê, além de preservar um patrimônio de Curitiba, garantiria a acessibilidade e a segurança de quem pisa nessas calçadas, exatamente como o fotógrafo português demonstrou em abundância na sua palestra.

Se um dia nossas calçadas históricas encolherem ou desaparecerem, certamente não será por culpa do revestimento, mas da falta de atitude política/administrativa de capacitar adequadamente funcionários da prefeitura que teriam a obrigação de manter essas calçadas com qualidade.

Ontem realizei uma caminhada solitária pelo centro e pelo São Francisco, registrando alguns padrões das nossas lindas calçadas de petit pavê, que tanto me fazem sentir em casa, me fazem sentir em Curitiba. Que existam para sempre.

3 comentários:

  1. Participei do evento acima citado e, se já gostava da #artedacalcetaria, depois de ouvir e acompanhar a narrativa, acompanhada de fotos do fotógrafo Ernesto Reis,mais gosto das calçadas ilustradas,Takeuchi.

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  2. Uma correçãoao meu comentário acima: o fotógrafo Ernesto Matos.

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