sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Gilda



“... a mão estendida, um chute na cara...e nunca houve uma mulher como Gilda, 
um trocado ou beijo na boca maldita...”

Esse é um trecho da música “Nunca houve uma mulher como Gilda” do grupo Curitibano “Lívia e os Piá de Prédio”, feita em homenagem a um dos personagens mais conhecidos de Curitiba da segunda metade da década de 70 até início dos anos 80: a Gilda, o travesti mais famoso que Curitiba já teve.

A Gilda apareceu em Curitiba e tinha como palco a Boca Maldita. Lá era temida e admirada por todos. Temida porque um pedestre mais distraído poderia ser abordado por ela/ele e se não desse um trocado, receberia da Gilda um beijo, se possível na boca. E admirada por ter coragem de ser quem era no centro machista de Curitiba, a Boca Maldita. Dizem que era pouco apreciada pelo presidente eterno da Boca Maldita (Anfrísio Siqueira), que segundo relatos, tentou o quanto pode afastá-la da Boca Maldita e do Carnaval de Curitiba. Protagonista do célebre episódio, confirmado por alguns e desmentido por outros (inclusive o próprio Anfrísio Siqueira), no qual teria impedido a Gilda de subir no carro da Banda Polaca com um chute na cara.

Como morei no Edifício Asa durante o reinado da Gilda na Boca Maldita, a via com freqüência perseguindo alguns passantes, para diversão dos que observavam na segurança das janelas e marquises. Não raro, alguém combinava com ela um beijo surpresa num colega ou num parente de fora, para depois, virar chacota de ter se tornado mais uma vítima da Gilda.

A melhor lembrança que tenho da Gilda aconteceu num dia de muita chuva. Naquela tarde, enquanto todas as pessoas surpreendidas pela chuva buscavam a proteção e se apertavam debaixo das marquises, lá no meio da XV, no coração da Boca Maldita, sozinha estava a Gilda de braços abertos, dançando e dando boas vindas a tempestade.

Morreu na miséria, doente, abandonada e enterrada como indigente no cemitério do Santa Cândida.

Procurando informações sobre a Gilda na internet, encontrei uma crônica do Dante Mendonça (http://www.parana-online.com.br/colunistas/67/43514/?postagem=GILDA+UM+CHUTE+NA+CARA) e a partir dessa crônica, encontrei um curta metragem sensacional do diretor de cinema Yanko Del Pino concluído em 2007 e que está disponível na internet no link http://www.beijonabocamaldita.kit.net/ . Ambos, a crônica e o curta são imperdíveis para entender melhor a Curitiba e a Gilda dos anos 70/80.

Como não tenho fotos da Gilda, optei por postar fotos da Boca Maldita, palco de suas artes.

4 comentários:

  1. Faltou mencionar que a Gilda era um travesti, e ficava fula da vida se a chamassem de viado ou coisas do gênero. Na verdade era uma bicha-louca, e mais louca que ela não existia. Segundo reza a lenda, Gilda nasceu numa família bem abastada, mas como o mundo, principalmente o mundo curitibano, era de conservadorismo, não aceitava tais "anomalias" na família. Então passou a viver nas ruas. Gostei da postagem. Gostei do blog.

    www.mariobourges.com.br

    ResponderExcluir
  2. Engraçado ... há coisas que marcaram a minha adolescência: uma, foi a morte do Elvis; outra, a da Gilda, bastante divulgada pela mídia na época. Minha mãe, nesse tempo, lecionava em um colégio da Boca Maldita e, por vezes, presenciou as peripécias da Gilda. Fico imaginando a cena ... deveria ser algo realmente hilário assistir a Gilda tascando um sonoro beijo - "SMMMAAACCCKKK" - nesses sujeitos arrogantes e metidos a besta que pululavam a Boca Maldita. A Gilda faz falta. Deus a tenha ...

    ResponderExcluir
  3. Faltam Gildas para colocar muita gente nos seus devidos lugares!

    ResponderExcluir

O que achou desse post? Seu comentário é muito bem-vindo.