terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Eleuther - O homem que vestiu as primeiras damas - parte 1








Gentleman. Certamente seria essa a palavra mais adequada na língua inglesa para definir esse senhor de 88 anos que com muita gentileza, permitiu que esse modesto blogueiro pudesse conhecer o seu atelier e seu belíssimo apartamento num prédio icônico no centro de Curitiba. 
Eleuther de Alencar dos Guimarães Vianna nasceu em Paranaguá em 1926, no seio de uma família tradicional. Seu pai, inspetor da alfândega, garantiu à sua família uma vida confortável, com acesso à requintes que poucos na época no Brasil poderiam ter acesso. 
Muito jovem vai para São Paulo para internar-se no mosteiro de São Bento, onde teve que acostumar-se a viver de forma simples e silenciosa. Com a morte do pai em 1951, volta para o Paraná rapidamente para cuidar da mãe, não mais retornando para o mosteiro. 
Muda-se para o Rio de Janeiro, morando num apartamento, segundo ele, JK (janela e kitinete) em Copacabana. Conheceu, entre um banho de mar/sol e outro, a proprietária de uma butique na frente do Copacabana Palace. Ousado como qualquer jovem do alto de seus 20 anos, comenta com essa senhora que uma butique chique como aquela, não poderia ter uma vitrine “tipo rua da Alfândega” em frente ao Copa. Meio que indignada, ela comenta que trabalhava com o melhor vitrinista do Rio de Janeiro e o desafiou a fazer melhor. Ele, sem experiência, limpa a vitrine e a decora de acordo com seu (bom) gosto e volta para sua rotina de mar, areia e sol. No dia seguinte, novamente nas areias de Copacabana, percebe um funcionário da butique circulando pelo calçadão e intuindo que esse o procurava, vai ao seu encontro. O funcionário diz que sua presença era exigida imediatamente na butique. Lá chegando, ainda em trajes de banho, percebe que a vitrine está fechada por cortinas e na porta, a senhora o espera. Ele pergunta porque ela tirou tudo da vitrine, ao que ela responde: “foi tudo vendido” e continua “vá para casa, tome um banho, vista-se decentemente e volte para fazer a vitrine”. Estava empregado. 
Essa mesma dona de butique certa vez lhe pede sugestões para fazer um vestido a partir de um corte de tecido, o jovem Eleuther diz que apesar de interessar-se muito pelo tema nada sabe sobre corte e costura. Recebe então o conselho que definiria seu futuro: “aprenda”. Entrou no curso de corte e costura de duas irmãs austríacas judias que fugiram da guerra na Europa (Elizabeth e Malvina Kahane), numa época em que homens não entravam em escolas de corte e costura. Aprendeu a arte da modelagem, trabalhou no Rio de Janeiro, estudou na Europa. Volta para Curitiba em 04/06/1963 para cuidar da mãe e estabelece seu atelier. Em setembro executa o seu primeiro vestido para uma debutante do Clube Concórdia e nunca mais parou, vestindo primeiras damas e mulheres de famílias importantes da sociedade curitibana. Conta que já vestiu meninas para primeira comunhão, mais tarde como debutantes, depois como noivas, por fim como viúvas e brinca que apenas não costurou mortalhas!
Continua amanhã.

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