segunda-feira, 23 de abril de 2012

Curitiba e a pichação!





Semanas atrás quando fui ao setor histórico, dei de cara com o Belvedere todo, integralmente PICHADO. Saí de lá o mais rápido possível com um misto de vergonha e revolta. Mas fugir de um problema não é a maneira mais inteligente de lidar com ele e por isso, voltei ao Belvedere para fotografá-lo no estado em que se encontra hoje, ainda mais depois de também ser confrontado com o painel de Erbo Stenzel na Praça 19 de Dezembro igualmente pichado (hoje praticamente limpo) e pela recente notícia da pichação do prédio Suite Vollard, o primeiro prédio giratório do mundo (e certamente o mais vazio).

Pesquisei um pouco sobre o tema e achei na Wikipedia um artigo bem interessante, de onde extraí alguns dos próximos parágrafos.

Pichação é o ato de escrever ou rabiscar sobre muros, fachadas de edificações, asfalto de ruas ou monumentos, usando tinta em spray aerosol, dificilmente removível, estêncil ou mesmo rolo de tinta.
No geral, são escritas frases de protesto ou insultos, assinaturas pessoais ou mesmo declarações de amor (raramente), a pichação é também utilizada como forma de demarcação de territórios entre grupos – às vezes gangues rivais. Por isso difere-se do grafite, uma outra forma de inscrição ou desenho, tida no Brasil como artística.

Já na Antiguidade é possível encontrar elementos de pichação. A erupção do vulcão Vesúvio preservou inscritos nos muros da cidade de Pompeia, que continham desde xingamentos até propaganda política e poesias.

Na Idade Média, padres pichavam os muros de conventos rivais no intuito de expor sua ideologia, criticar doutrinas contrárias às suas ou mesmo difamar governantes.

Com a popularização do aerosol, após a Segunda Guerra Mundial, a pichação ganhou mais agilidade e mobilidade. Na revolta estudantil de 1968, em Paris, o spray foi usado como forma de protesto contra as instituições universitárias e manifestação pela liberdade de expressão.

Construído no início da década de 1960, o Muro de Berlim ostentou por vários anos um lado oriental limpo e de pintura intacta, controlado pelo regime socialista da União Soviética, enquanto seu lado ocidental, encabeçado pela democracia capitalista dos Estados Unidos, foi tomado por pichações e grafites de protesto contra o muro.

A pichação é, por definição, feita em locais proibidos e à noite, em operações rápidas, sendo tratada como ataque ao patrimônio público ou privado, e portanto o seu autor está sujeito a prisão e multa.
No Brasil, a pichação é considerada vandalismo e crime ambiental, nos termos do artigo 65 da Lei 9.605/98 (Lei dos Crimes Ambientais), que estipula pena de detenção de 3 meses a 1 ano, e multa, para quem pichar, grafitar ou por qualquer meio conspurcar edificação ou monumento urbano.

Imagino que muitas pessoas poderiam considerar a pichação como uma forma de dar voz a quem normalmente não é ouvido, como se isso pudesse justificar esse tipo de vandalismo. Mas tomemos o caso do Suite Voillard (o metro quadrado pichado giratório mais caro do mundo). A trupe que fez aquele “serviço” foi vista saindo do local num Honda Fit e depois comemorou o feito no Facebook como quem tivesse descoberto a cura para o câncer, lembrando ainda que o material usado não é nada barato. Nesse caso em específico não se trata portanto de um protesto, mas uma simples e torpe forma de parecer famoso dentre os seus iguais que fazem parte desse universo pouco provido de um objetivo que pareça louvável e pobre em respeito ao que é público (como o Belvedere e o painel de Erbo Stenzel) e ao que é privado (como no caso do Suite Voillard).

A polícia tem conseguido flagrar alguns desses indivíduos e aplicado medidas sócio-educativas (no caso de menores) e multas no caso de maiores. O que pede a polícia é que a população seja o principal agente de inibição dessa prática, denunciando diante de uma ação de pichadores.

No texto que extraí da Wikipedia, em algum momento lê-se que inclusive poesias eram encontradas nas pichações da antiguidade. Num site sobre a pichação paulista, achei o seguinte:

“... a minha história na pixação começo na escola quando eu vi uma revista di pixação dai pra frente eu kiria te minha propria marca por que sei lá alguma coiza ali me atraia então criamos um grupo na escola e um truta meu crio IRA ae era akela alegria sempre sempre fazendo role e tal e o ano vai passando até que xego um dia eu criei CUECAS e até hoje to ae na atividade muitos colegas meu pararão com a pixação e eu até hoje num consigui mas nem quero kkkkkkkkkkk ... mas é isso ae paz pra todos os pixadores ae é nois...”

Pois é, “é nois” e nós, que temos que pagar pela recuperação do que é público e foi pixado, como ficamos??

Complementação do texto em 03/02/2016

Há poucos dias fui confrontado nesse espaço por uma pessoa que parece fazer parte do mundo da pixação. Ele ficou um pouco aborrecido comigo por eu recusar a classificação da pixação como arte.

Bem articulado (como poderão ver nos comentários mais abaixo), ele me indicou dois vídeos no You Tube. Um de um famoso pixador de São Paulo, que foi convidado para ir à Paris pixar uma galeria e outro onde um antropólogo fala do fenômeno e vários pixadores comentam sobre seu universo.

Sem dúvida seus comentários e os vídeos me fizeram novamente pensar sobre o assunto e no meu caso, a chegar à algumas conclusões muito particulares.

O que me incomoda na pixação é o fato de ser esteticamente muito feio e acho que isso se sobrepõe ao fato de ser não autorizado, já que se eu olhar um grafite  bacana (como o dos Gêmeos que foi coberto na Igreja da Ordem), vou curtir sem saber se foi ou não autorizado. Outro ponto que me incomoda é o fato de causar prejuízo à um cidadão comum e à comunidade pelo custo que a reparação representa.

Do segundo filme extraí alguns comentários que gostaria de colocar abaixo como o contraponto ao que escrevi em algumas partes do texto mais acima.

Eles disseram que a pixação é:
Uma forma de expressão;
Consequência, já que alguma coisa está errada (condições de vida no local onde moram);
Uma ação de gangue;
Algo que deve ser reconhecido como arte, assim como aconteceu com o grafite;
Uma forma de arte não domesticada;
Terrorismo poético;
Poesia marginal;
O grafite menos elaborado;
Esporte;
Adrenalina;
Arriscar a vida. Um conceito de arte que nenhum outro artista tem;

22 comentários:

  1. pode até ser considerado uma arte, já vi alguns bem bonitos e fotografei para guardar a imagem, mas quando essa arte é exercida de forma abusiva, sem o consentimento dos proprietários dos muros, paredes ou fachadas, ou pior ainda, estragando a arte dos outros, o conceito de arte pra mim vira puro vandalismo e fica sem sentido.

    JOpz

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  2. Da última vez que estive no Belvedere também fiquei triste. Vivo falando como é bonito aquele local, em art noveau. Lamentável tudo isso!

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  3. O tema é provocador da minha indignação e vergonha, Takeuchi. O vandalismo urbano é uma praga, tal como a erva-daninha que se alastra em todos os lugares; é preciso combatê-lo energicamente.


    Você fez, indiscutivelmente, um apanhado informativo muito bom sobre o tema. Sabe o que fiz com ele? Eu levei adiante a conversa temática ao NaMiradoLeitor. Tomei, inclusive, a liberdade de reproduzir uma das suas fotos e indiquei os links para que o interlocutor da minha página veja a extensão do prejuízo e analise o combustível da nossa indignação e vergonha.

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  4. Eu nunca pichei nem nunca vou pichar, mas não fico tão indignado com esses atos. Vejam, eles não fazem mal a ninguém. Sei que muda a paisagem da cidade e, pelo menos ao meu ver, é muito feio.

    Mas faz parte da paisagem urbana em todo o mundo, não é algo isolado. Isso tem a ver com o próprio sentimento humano de deixar marcas no local que vive, de se expressar de alguma maneira e essa forma de arte é típica do zeitgeist de nossa sociedade. Além disso a pichação é condenada pela maioria da sociedade, o que reforça seu caráter constestador, o que já ocorreu com outras formas de expressão em diferentes sociedades.

    Pelo menos não chegamos ao que ocorre em Paris, lugar no qual costumam pichar automóveis e ônibus, geralmente públicos ou de uso empresarial.

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    1. Desculpe, mas não consigo imaginar em uma justificativa para a defesa à pichação, bem como não consigo imaginar que não faz mal a ninguém.
      Em primeiro lugar, ainda que as pessoas tenham o direito de se expressarem, não têm o direito de impor sua expressão a força para os demais. Ora, porque deveríamos, todos, sermos obrigados ao nos deslocarmos pela cidade “apreciar” uma “manifestação artística” tão precária e feia? As pessoas que tiveram suas propriedades pichadas pediram para que assim fosse? Elas queriam isso? E o espaço público que deveria ser de todos, as pessoas gostariam que fosse pichado? Sentem-se bem com isso? Bela forma democrática de impor suas preferências.
      Podemos discorrer, também, a respeito do custo econômico da pichação. Certa vez, num domingo, pude presenciar um senhor de certa idade pitando, sob o sol quente, a fachada de seu pequeno comércio. Ora, grandes empresas e residências abastadas podem, com certa facilidade, repintar suas fachadas. Porém, é para o mais pobre que a conta vai vir mais pesada. Nesse caso, justificativas esdrúxulas, do tipo: Os pichadores contra a propriedade (como já encontrei na internet); perdem totalmente a razão.
      Pichação é feio, esteticamente desagradável, é autoritário, ofensivo e custa muito aos cofres públicos (o dinheiro que deveria ser do povo) e às pessoas que têm seu patrimônio pichado (custando proporcionalmente aos mais pobres, logo, é economicamente injusto). Acho que essas colocações desqualificam, ao meu ver, todas as justificativas para tal ato de vandalismo, que deveria ser punido.

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  5. Oi Mayra. Quanto ao prejuízo, a prefeitura de Curitiba gasta mais de (dados da propria PMC) R$ 1 milhão por ano para cobrir o que afeta o patrimônio publico. A mesma despesa tem os proprietários de casas e estabelecimentos comerciais. Esse dinheiro perdido poderia certamente ser usado para coisas mais produtivas para a cidade (no caso do dinheiro da prefeitura, que na verdade eh o nosso dinheiro) ou para coisas muito melhores no caso das pessoas (um jantar, uma roupa nova por exemplo).
    Se usado na forma de protesto, tipo "Fora Fulano!" ou "Basta de políticos corruptos!!" acho ate razoável, já que há uma inteligência por trás disso.
    Mas como entender como protesto alguém que assina sempre a mesma coisa tipo "kuekas"? E como voce disse, fica tudo muito feio demais.

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  6. Oi,

    Sou super fã de street art, graffiti etc. e tenho uma coleção de livros e fotos sobre o assunto. Na minha humilde opinião a pixação como forma de expressão, ou até de protesto é válida. Estas pixações que vi acima parecem mais demarcação de território, realizadas pelos mesmos autores (Nerd, HEMP,etc.) ou seja, competição de gangs. Não deixam de ser uma forma de expressão mas infantis na minha opinião.

    Nem todos temos o mesmo acesso à educação e estas pixações são a mais pura demonstração democrática de que a rua é de todos, bonita ou não.

    Não quer dizer que eu goste, mas que mostra que a rua está viva e é de todos.

    Vanessa

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    1. Se a rua é de todos, pequenos grupos não poderiam se apoderar delas fazendo o que bem entem!

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  7. Oi Vanessa. Acho que voce tocou num ponto interessante e que pode ter relação com esse universo dos rabiscos: educação.
    A palavra educação pode referir-se a educação formal, aquela que se adquire nas escolas ou livros, mas tambem aquela que nossos pais e familiares nos da ao longo da vida.
    Fico imaginando se uma ou outra seria fator determinante para afastar uma pessoa desse universo que discutimos aqui.

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  8. Washington, vc já viu as pichações em uma casa da rua Brasílio Itiberê, só não tenho certeza se é esquina com a rua 24 de maio ou com a rua Alferes Poli. É uma espécie de protesto e acredito que foi feita pelo proprietário da casa...

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  9. Oi Alexandre. Vi sim. Achei pesado demais para fotografar. Pelo que soube, de fato o próprio morador pichou a casa em protesto pela morte de sua mãe.

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  10. PRIMEIRO COMANDO ORGANIZADO ** P C O ** SO DA PSCO ...... NERD, CRETINOS, NAO TEN SO PIXAÇAO EM CURITIBA E SIIM EM TODOS OS LUGAR!! TAMO AI ESPRESSANDO ARTE TD DIA;. E PIXO MEMO

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    1. Cara, por mais que você queira, o que fazem não é arte em lugar nenhum do mundo, é VANDALISMO e ponto final! E sim, infelizmente ISSO existe em todos os lugares!
      Quer fazer arte? Encoste em algum grafiteiro, há tantos bons em Curitiba, aprenda e além de poder expressar sua revolta/mensagem com arte e inteligência, poderá ainda ganhar alguma grana.

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  11. caro washington, quem eh vc pra julgar o que eh arte ou nao eh arte?
    saiba que em Paris a pixaçao eh muito valorizada como arte urbana...pixadores la sao reconhecidos como "ARTISTAS" e varios foram convidados para PIXAR GALERIAS INTEIRAS como o Cripta Djan......Procure se informar sobre o conceito de arte!
    http://super.abril.com.br/cultura/pichacao-e-arte

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    1. Allan, no texto que indicou há a seguinte frase: "A definição do que é arte tem algo de relativo e abstrato. O que é arte para uns, pode não ser para outros".
      Assim sendo, na minha modesta opinião, pixação não é arte. É vandalismo puro e simples! E mais (ainda citando o texto), uma resposta de ódio, ou seja, nada de bom!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Amigo, voce pode ter seu conceito de arte. mas nao DIZER e JULGAR o que é ARTE ou nao. Fazer uma materia apontando algo como vandalismo sem mostrar todos os lados artisticos, protestantes e as causas e muito facil....
      Resposta de odio ao meu ver eh o texto publicado nesta pagina!

      Cripta Djan Pixando em Paris: www.youtube.com/watch?v=ZOXfrVPcEXM

      Pixaçao como arte por Massimo Canevacci: https://www.youtube.com/watch?v=UzuCPnDFa4w

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    4. E como se nao bastasse, lendo a ultima estrofe, voce ainda 'ridiculariza' com uma forma de escrever peculiar os pixadores...
      Sim Sr. Washington, os pixadores sao na sua maioria pessoas que nao tiveram um ensino de qualidade e muitos tem nisso a sua valvula de escape pra seguir sua vida POBRE E FUTIL! assim como eu! A vida de um pixador nao tem tanto valor igual o celular que vc deve ter, seu computador, seu apartamento....E eh isso que nos incomoda...sermos tratados como "LIXOS" pelos "finos" e nao sermos compreendidos...

      Isso so me inspira mais a PIXAR TUDO mesmo e mandar os "coxinhas" irem tomar naquele lugar....igual deveria ter feito apos ler esse monte de bobagem e opiniao futil sem estudo que nao abrange em nada....
      Abraço

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    5. Allan, quem falou de ódio foi o texto que você indicou, apenas usei o texto para lhe responder. Posso sim dizer e julgar o que eu bem entender, assim como você o fez nessa troca de mensagens.
      Não ridicularizei a forma de escrita, apenas à reproduzi. Quando eu disse "e nós como ficamos?" me refiro ao prejuízo que o pixar causa à cidade, uma vez que o dinheiro para recuperar os bens VANDALIZADOS é pago por mim e por você (que imagino, faz compras na cidade onde mora).
      E novamente, não julguei as pessoas, seu grau de instrução, mas o ATO de depredar o que não lhe pertence. Como também falei no texto, o prédio redondo foi pixado por pessoas de classe alta, portanto, com celulares, carrões, computadores e apartamento. Isso definitivamente não os torna melhores do que ninguém e como pixadores, tão vândalos como qualquer outro.
      Obrigado pelo contato!
      Abraço.

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    6. E complementando, PAZ meu camarada!
      Não tenho raiva ou ódio de pixadores, apenas não aprovo e não gosto de pixações. Admiro e gosto de grafites, que me parece um amadurecimento da pixação.
      Tenho, felizmente a democracia assim permite, o direito de me expressar e de uma certa forma, você pixou o meu blog, certo?
      Abraço.

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    7. Allan, seguindo mais ainda no papo. Vi o video do Cripta em Paris (o outro verei depois).
      Dá o que pensar.
      Continuo não gostando da estética do pixo (acho feio mesmo), mas no caso de Paris, o cara foi convidado, pixou num local autorizado e tal. Tem gente ali que curte e que deve ter achado bacana. No mesmo video da janela do hotel ele mostra a Catedral de Notredame limpinha! Será que eles curtiriam a catedral pixada?
      Fiquei pensando se a questão que me incomoda seria a não autorização para o pixo (acho que o que motiva o pessoal que pixar é exatamente isso, a não autorização, a transgressão) ou a estética do pixo.
      Pensei daí se eu gostaria de ver o meu prédio pixado, e concluo que não. Pensei se gostaria de ver o meu prédio grafitado sem autorização e conclui que provavelmente gostaria.
      Então para mim o que pega é a estética, tanto que há pixações nas quais os caras usam uma letras gordas (acho que é pixação, certo?) e algumas até achei legal.
      É isso! Me fez pensar.

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    8. Complementando. Estética é um conceito bem pessoal. Tem gente que acha Pablo Picasso fantástico e tem gente que acha uma porcaria.

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