segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Vagão do Armistício










“Tá vendo essa mulher com uma cesta de flores? É nossa avô Mônica. Era francesa e cultivava copos de leite nesse quintal”, essa frase foi dita por João Lazzarotto ao colunista José Carlos Fernandes da Gazeta do Povo.

Lendo o livro de Valério Hoerner Júnior, "Ruas e Histórias de Curitiba", descobri muito sobre Curitiba, o que já rendeu vários posts nesse blog. Uma grande parte do livro é dedicada a contar a história do Vagão do Armistício, não aquele onde a Alemanha assinou o tratado de paz no final da primeira grande guerra e onde Hitler, como revanche, fez a França assinar sua rendição durante a segunda grande guerra.

O vagão em destaque no livro trata-se de uma pequena casa de madeira que um dia fora estábulo e que em 1937 foi transformado numa cantina por Isaac Lazzarotto e sua esposa Julia Tortato, pais do maior ilustrador do Brasil e o mais conhecido artista plástico que Curitiba já produziu: Poty! Se considerarmos que somente a partir de 1950 Santa Felicidade passou a ser conhecida como centro de gastronomia italiana, podemos dizer que dona Julia foi quem introduziu pela sua cantina o risoto em Curitiba. Ali em princípio apenas para o pessoal do exército, eram servidos radicci, polenta brustolada e o risoto, para não mais do que 40 bocas, pontualmente as 19 horas. Mas tinha que avisar antes, senão, meia volta!

Lendo o livro e vendo as fotos, imaginava que o vagão há muito havia se perdido no tempo. Sabia que o irmão mais novo de Poty, João Lazzarotto, proprietário do Cartório Cajuru, mantém no cartório uma verdadeira exposição permanente de obras do irmão, o que torna esse cartório único e sem dúvida, candidato a uma visita (tenha ou não um reconhecimento de firma por fazer).

O que eu não sabia é que o local onde funciona o cartório, era onde vivia a família Lazzarotto e nesse mesmo local, funcionava o Vagão do Armistício. “Fuçando” na internet, descobri mais ainda: muito provavelmente o vagão ainda existiria pelo cuidado que o seu João tem com a memória de sua família. Pois bem, vencendo a minha timidez, liguei para o cartório. Perguntei se o Vagão ainda existia e diante da resposta positiva, perguntei se seria possível uma visita. Pediram para que eu aguardasse e eis que o seu João em pessoa me atende e eu explicando a existência do blog e a minha admiração pelo trabalho do irmão, autorizou a minha visita, pedindo que eu procurasse por Renata, que me conduziria ao vagão.

Na hora marcada fui ao cartório e uma incrivelmente simpática Renata conduziu a mim e a minha esposa por uma viagem no tempo. Desde que foi fechado como cantina, o seu João cuida da pequena casa de madeira como se fosse e de fato é, uma relíquia. A pintura está impecável, há flores nos canteiros, cortinas nas janelas, a grande mesa lá está e principalmente, no teto abaulado estão preservados os desenhos de Poty. Fotografei tudo o quanto quis. Depois, por orientação do seu João, Renata nos dedicou ainda mais um pouco do seu precioso tempo (Sábado o cartório fica muito agitado com vários casamentos) para nos mostrar uma caixa com fotos do vagão, dos famosos que freqüentaram o local e fotos da família Lazzarotto. Uma maravilha!

Fiquei muito triste por confirmar que a intenção de construir e manter um local adequado que abrigaria toda produção de Poty que está sob a guarda do Sr. João não sai do papel por total e absoluta falta de apoio oficial. Nada mais justo considerando a importância que Poty Lazzarotto tem para as artes plásticas não só de Curitiba, do Paraná, mas do Brasil.

Mas apesar dessa triste constatação, foi um grande privilégio para nós, podermos pessoalmente ver e tocar num pouco da história de Curitiba e dessa família que representa muito para essa cidade.

Agradeço muito ao Sr. João Lazzarotto e à Renata pela gentileza em permitir o nosso acesso ao vagão e às fotografias.

9 comentários:

  1. SHOW! parabéns pela iniciativa e ótimas imagens.

    Jopz

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  2. Nossa, quem diria que existissse algo assim! Parabéns pela atitude, aposto que poucos curtibanos sabem da história dessa casa tão charmosa.

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  3. Linda casa, linda história...parabéns pelo blog, sou fã!

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  4. Obrigado pela visita pessoal. Tenho muita admiração pelo trabalho do Poty (impossível andar por Curitiba e não topar com algo importante feito por ele) e passei a admirar a história da família dele. Pena não termos um espaço que com dignidade pudesse abrigar e expor à todos o legado desse grande curitibano.

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  5. Olá estou fazendo um pequeno documentário sobre Poty, para uma trabalho da matéria de 'linguagem visual' eu posso utilizar as suas fotos (com os devidos creditos)? se sim, você poderia me fazer o imenso favor de me enviá-las por e-mail? kalyanemarie@gmail.com
    muito obrigada!

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  6. Oi Kalyane. Sem problemas. Vou mandar. Porém, o HD onde arquivo minhas fotos está no escritório, assim só poderei mandar na segunda-feira. OK?

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  7. Parabéns pelo trabalho de verdadeira garimpagem !
    Cheguei até aqui peloa blog NacoZinha e vim correndo ver, pois adoro Curitiba !!!
    Certamente voltarei para outras descobertas.

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  8. Oi Flora. Obrigado pela sua visita e volte sempre! Legal ter vindo pelo blog da Gina (que é sensacional).

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