domingo, 14 de junho de 2009

Descendo a serra de trem - Parte 4



Para a obra, foram recrutados mais de 9.000 homens, que ganhavam entre dois e três mil réis por jornada. A maioria deles vivia em Curitiba ou no litoral, e era composta de imigrantes que trabalhavam na lavoura. Mais da metade desses homens faleceu durante a construção da ferrovia, frente às condições precárias de segurança.

A cruz do Barão do Serro Azul
Foi preciso esperar 114 anos para que o país finalmente conseguisse reconhecer um homem que deu a vida para proteger Curitiba: em dezembro do ano passado, o fazendeiro e político Ildefonso Pereira Correia, o barão do Serro Azul, teve seu nome incluído no Livro de Aço dos Heróis Nacionais, do Panteão da Pátria Tancredo Neves, em Brasília.

A injustiça está marcada, até hoje, com uma cruz no quilômetro 65 da Serra do Mar, na estrada de ferro que liga Curitiba a Paranaguá. Foi nesse local que o barão do Serro Azul e mais cinco companheiros foram fuzilados pelo Exército de Marechal Floriano Peixoto na noite de 15 de maio de 1894, sem julgamento. Para entender o que aconteceu, é preciso voltar a 1893, quando os revoltosos do Rio Grande do Sul, conhecidos como maragatos, decidiram invadir o Paraná levantando a bandeira pela República e pela derrubada do presidente Marechal Floriano do poder.

Os maragatos chegaram em três frentes ao estado: por Tijucas do Sul, pela Lapa (onde a resistência deixou várias pessoas mortas) e por Paranaguá.

O então presidente do estado, Xavier da Silva, ao saber da proximidade dos maragatos, pediu licença do cargo sob a alegação de que tinha de tratar de problemas de saúde. Vicente Machado, o vice, assumiu e decidiu transferir a capital para Castro, sua cidade natal. Curitiba ficou à mercê dos revoltosos que já chegavam ao município, até mesmo de trem, para tratar dos feridos. Os boatos sobre a possibilidade de saques no comércio, inclusive a ameaça à integridade das famílias que decidiram ficar, fizeram com que o barão do Serro Azul tomasse a decisão de cuidar de Curitiba, por meio de uma junta governativa.

Serro Azul considerava desnecessário derramar mais sangue: para ele, o Cerco da Lapa já tinha deixado um saldo de mortes muito grande. Por isso, decidiu negociar com os maragatos: em troca da paz e da inexistência de saques no comércio, o barão emprestou, com o apoio de alguns comerciantes, dinheiro a Gumercindo Saraiva, chefe dos maragatos. A negociação, entretanto, foi vista como uma traição por parte dos florianistas. Serro Azul não era maragato nem pica-pau. Justamente essa posição neutra lhe tirou a vida.

Publicado no Jornal Gazeta do Povo, caderno Vida e Cidadania em 31/01/2009 Pollianna Milan
Artigo: Nobre que deu vida pela paz tem heroísmo reconhecido

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